sexta-feira, 19 de março de 2010



Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.



Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.


António Gedeão

7 comentários:

direitoÀcena disse...

Não parecendo este um post colectivo, de quem é a autoria?

LN

Pipette disse...

Exacto, já assinavam os posts :p

Ana C J Sousa disse...

É da minha autoria e foi colocado a propósito do dia da poesia que se aproximava e de uma noticia que tinha lido, presente no seguinte site : http://www.ionline.pt/conteudo/51513-milhares-poemas--mesa-dos-cafes-e-restaurantes-s-joao-da-madeira. Foi um lapso a nao assinatura do post devido a minha inexperiência nestas andanças por blogosferas. A escolha do poema foi uma mera questão de gosto pessoal e afinidade não só com o poema como com seu autor, o cientista-poeta António Gedeão; além da mensagem transmitida pelo sujeito poético que justifica a agregação da imagem de Charlie Chaplin em Tempos Modernos, que presumo serem tempos semelhantes aos que se aproximam com os ensaios das proximas semanas:)
Ana C. Jorge Sousa

Don Quixote de la Mancha disse...

Gostei da justificação...ja te percebo oh inês :P

direitoÀcena disse...

lol

LN

Pipette disse...

Ai, tão espertinho que tu me saíste..já tinha saudades tuas :)

Don Quixote de la Mancha disse...

Eu também já tinha saudades das vossas tramas e afins :P e sim, esperto!