domingo, 29 de junho de 2008

Acordos


(porque em casa da minha avó ainda não se tiram fotocópias - e não há 'disto' na internet...)


Posso combinar uma coisa com o senhor Pessoa:

ele que trate das suas pessoas, que as leve ao médico,

lhes dê de comer, e as meta na cama, às três,

sobretudo, e já agora às outras, se as houver,

que eu não me meto nisso. Pessoa,

basta-me a que tenho, e que já combinou

tudo com o Pessoa – mas o próprio,

de gabardine para não apanhar com a chuva

oblíqua no fato preto, e opiário no bolso

por causa do pagode marítimo.


Posso combinar outra coisa com o senhor Camões:

apanhe o avião para a Índia no terminal dos charters,

que são mais baratos; e veja se não fuma às escondidas,

que é proibido; e menos ainda ligue o telemóvel,

que interfere com os instrumentos de voo, mesmo

que precise muito de falar com a Natércia, ou com

a Leonor, ou com a Bárbara, ou qualquer outra das mil

e três que lhe infestam sonetos e canções. O

que eu quero dele é que me traga de Hong Kong (por onde

tem de passar a caminho de Macau) um Rolex

de imitação – no free-shop é mais barato.


E contigo, meu caro Pessanha,

quero combinar outra coisa: não me peças nada

para o Wenceslau. Deixa-o estar no Japão, que

está lá muito bem, e o caminho de volta

para a pátria não se recomenda a ninguém. E tu,

ópio à parte, ensina a nossa querida língua a uns

quantos chineses, mesmo que eles troquem os erres

pelos eles. No teu nome, Camilo, é que não

há troca possível. E se fores à gruta do Camões, leva

o piquenique: talvez não queijadas de Sintra

nem pastéis de nata, mas um frango de aviário

e batata frita (esquece o arroz, que é melhor

ao jantar, no chinês do costume).


Nuno Júdice



1 comentário:

direitoàcena disse...

Que é como quem diz:curem os vossos traumas!!lol