sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Tenho

Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu...
Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.

Álvaro de Campos

(ln)

1 comentário:

direitoàcena disse...

Bolas!!Agora percebi que foi este poema que me contagiou...
Atchiiimmm ...

Joana Neto