(Praia de Moledo, Julho 08)
terça-feira, 22 de julho de 2008
quinta-feira, 17 de julho de 2008
À Joana Neto
.
Passei por esta na rádio ainda hoje.
Obrigada às meninas que me apresentaram a Casa da Música.
(lbc)
quarta-feira, 16 de julho de 2008
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Cinemateca
Uma vitória anunciada e festejada pelos promotores da petição online que muitos assinaram (e eu também).
Um resultado pelo qual o Cineclube da FDUP muito lutou.
Parabéns a todos!
Aguardemos agora as próximas cenas...
(lbc)
domingo, 13 de julho de 2008
Vidas 2
Dei a volta à vida toda - meu Deus. (...) Dar a volta por quanto existi - e exististe tanto. Porque uma vida humana. Como ela é intensa. Porque o que nela acontece não é o que nela acontece, mas a quantidade de nós que acontece nesse acontecer.
Vergílio Ferreira, Para Sempre
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Livro do Desassossego (n.º 84)
Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, «Aquela rapariga parece um rapaz». Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, «Aquela rapariga é um rapaz». Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afecto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, «Aquele rapaz». Eu direi, «Aquela rapaz», violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi «Sou». Se quiser dizer que existo como alma separada, direi «Sou eu». Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo «ser» senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi, «Sou-me». Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que, tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, «Sou Rei de Roma, e acima da gramática». E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo «super-grammaticam». Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
(LN)
quarta-feira, 9 de julho de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
Porque
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.'
(Inês)
terça-feira, 1 de julho de 2008
Mais uma do Nando
Quase tudo falta
Por isso ninguém te cura
E morrer é que é ter alta"
Fernando Pessoa
(Quadras ao Gosto Popular, Volume IX, 1ª edição, 1965)
(LN)
domingo, 29 de junho de 2008
Acordos
(porque em casa da minha avó ainda não se tiram fotocópias - e não há 'disto' na internet...)
Posso combinar uma coisa com o senhor Pessoa:
ele que trate das suas pessoas, que as leve ao médico,
lhes dê de comer, e as meta na cama, às três,
sobretudo, e já agora às outras, se as houver,
que eu não me meto nisso. Pessoa,
basta-me a que tenho, e que já combinou
tudo com o Pessoa – mas o próprio,
de gabardine para não apanhar com a chuva
oblíqua no fato preto, e opiário no bolso
por causa do pagode marítimo.
Posso combinar outra coisa com o senhor Camões:
apanhe o avião para a Índia no terminal dos charters,
que são mais baratos; e veja se não fuma às escondidas,
que é proibido; e menos ainda ligue o telemóvel,
que interfere com os instrumentos de voo, mesmo
que precise muito de falar com a Natércia, ou com
a Leonor, ou com a Bárbara, ou qualquer outra das mil
e três que lhe infestam sonetos e canções. O
que eu quero dele é que me traga de Hong Kong (por onde
tem de passar a caminho de Macau) um Rolex
de imitação – no free-shop é mais barato.
E contigo, meu caro Pessanha,
quero combinar outra coisa: não me peças nada
para o Wenceslau. Deixa-o estar no Japão, que
está lá muito bem, e o caminho de volta
para a pátria não se recomenda a ninguém. E tu,
ópio à parte, ensina a nossa querida língua a uns
quantos chineses, mesmo que eles troquem os erres
pelos eles. No teu nome, Camilo, é que não
há troca possível. E se fores à gruta do Camões, leva
o piquenique: talvez não queijadas de Sintra
nem pastéis de nata, mas um frango de aviário
e batata frita (esquece o arroz, que é melhor
ao jantar, no chinês do costume).
Nuno Júdice

