domingo, 13 de julho de 2008

Vidas 2


Dei a volta à vida toda - meu Deus. (...) Dar a volta por quanto existi - e exististe tanto. Porque uma vida humana. Como ela é intensa. Porque o que nela acontece não é o que nela acontece, mas a quantidade de nós que acontece nesse acontecer.



Vergílio Ferreira, Para Sempre

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Vidas




(LN)

Livro do Desassossego (n.º 84)

Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. É certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente – claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.
Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, «Aquela rapariga parece um rapaz». Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, «Aquela rapariga é um rapaz». Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afecto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, «Aquele rapaz». Eu direi, «Aquela rapaz», violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi «Sou». Se quiser dizer que existo como alma separada, direi «Sou eu». Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo «ser» senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi, «Sou-me». Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que, tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, «Sou Rei de Roma, e acima da gramática». E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo «super-grammaticam». Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

(LN)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

terça-feira, 8 de julho de 2008

Porque

'Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.'


Sophia de Mello Breyner Andresen


(Inês)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Mais uma do Nando

"A vida é um hospital onde
Quase tudo falta
Por isso ninguém te cura
E morrer é que é ter alta"

Fernando Pessoa

(Quadras ao Gosto Popular, Volume IX, 1ª edição, 1965)

(LN)

domingo, 29 de junho de 2008

Acordos


(porque em casa da minha avó ainda não se tiram fotocópias - e não há 'disto' na internet...)


Posso combinar uma coisa com o senhor Pessoa:

ele que trate das suas pessoas, que as leve ao médico,

lhes dê de comer, e as meta na cama, às três,

sobretudo, e já agora às outras, se as houver,

que eu não me meto nisso. Pessoa,

basta-me a que tenho, e que já combinou

tudo com o Pessoa – mas o próprio,

de gabardine para não apanhar com a chuva

oblíqua no fato preto, e opiário no bolso

por causa do pagode marítimo.


Posso combinar outra coisa com o senhor Camões:

apanhe o avião para a Índia no terminal dos charters,

que são mais baratos; e veja se não fuma às escondidas,

que é proibido; e menos ainda ligue o telemóvel,

que interfere com os instrumentos de voo, mesmo

que precise muito de falar com a Natércia, ou com

a Leonor, ou com a Bárbara, ou qualquer outra das mil

e três que lhe infestam sonetos e canções. O

que eu quero dele é que me traga de Hong Kong (por onde

tem de passar a caminho de Macau) um Rolex

de imitação – no free-shop é mais barato.


E contigo, meu caro Pessanha,

quero combinar outra coisa: não me peças nada

para o Wenceslau. Deixa-o estar no Japão, que

está lá muito bem, e o caminho de volta

para a pátria não se recomenda a ninguém. E tu,

ópio à parte, ensina a nossa querida língua a uns

quantos chineses, mesmo que eles troquem os erres

pelos eles. No teu nome, Camilo, é que não

há troca possível. E se fores à gruta do Camões, leva

o piquenique: talvez não queijadas de Sintra

nem pastéis de nata, mas um frango de aviário

e batata frita (esquece o arroz, que é melhor

ao jantar, no chinês do costume).


Nuno Júdice



quarta-feira, 25 de junho de 2008

ao direitoÀcena... e ao pequeno Sushi!


Temos um poema dedicado a nós..

http://ontheotherland.blogspot.com/2008/06/se-te-queres-matar.html


PS - Para quem não sabe, o Sushi - referido, em relação de horizontalidade com o direitoÀcena!, no post em questão - é o peixe que a autora do blogue ofereceu à Joana Aroso de prenda de anos. Os amigos presentes no jantar decidiram (por unanimidade) chamar-lhe SUSHI. Entretanto, alguma mente brilhante produziu a ainda mais brilhante teoria que versa sobre o curioso facto de o Sushi ter alguma tendência para o nervosismo, prevendo que, mais tarde ou mais cedo, ele vai saltar para fora do aquário, espetar-se num palito e tornar-se literalmente Sushi. E foi assim que chegamos ao momento em que a Lila dedicou uma parte do Se Te Queres Matar ao pobre peixe bebé. Bizarro. Ainda assim, achei que devia partilhar convosco. Portanto... a nós e ao Sushi ;)



terça-feira, 24 de junho de 2008

Lisa Ekdahl

Lisa em Inglês e em Sueco (!!!!). Enjoy.







Du är en saga för god för att vara sann
Det är en saga i sig att vi funnit varan
Vi kunde lika gärna aldrig någonsin mötts
Eller var vårt möte redan bestämd långt innan vi fötts

Vem vet, inte du
Vem vet, inte jag
Vi vet ingenting nu
Vi vet inget idag
Vem vet, inte du
Vem vet, inte jag
Vi vet ingenting nu
vi vet inget idag

Vem vet, inte du
Vem vet, inte jag
Vi vet ingenting nu
Vi vet inget idag
Vem vet, inte du
Vem vet, inte jag
Vi vet ingenting nu
vi vet inget idag

Du är en saga för god för att vara sann
Det är en saga i sig att vi funnit varan
Vi kunde lika gärna aldrig någonsin mötts
Eller var vårt möte redan bestämd långt innan vi fötts

Vem vet, inte du
Vem vet, inte jag
Vi vet ingenting nu
Vi vet inget idag
Vem vet, inte du
Vem vet, inte jag
Vi vet ingenting nu
vi vet inget idag

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Pesquisa

Pitufos,

As minhas sugestões, embora ainda não tenha
pesquisado muito, são de Shakespeare ou Molière.

as MULHERES SÁBIAS- Molière;

Twelfth Night - W. Shakespeare.

*** miss you a lot ***

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Nighthawks

Eduard Hopper

Recordo os primeiros ensaios do Processo, numa tarde de Julho, em 2000, no Campo Alegre. Naquela tarde, improvisava-se...
Alguém se lembra disto?

(lbc)

Luigi Pirandello. Esta noite improvisa-se.

Como prometido, comecei a minha investigação. Aqui vai o resultado da primeira incursão pelos textos para teatro.

Luigi Pirandello (Agrigento, 28 de Junho 1867 — Roma, 10 de Dezembro 1936) dramaturgo, poeta e romancista siciliano, foi considerado um renovador do teatro, com profundo sentido de humor e grande originalidade. As suas obras mais famosas são "Seis personagens à procura de um autor", "O falecido Matias Pascal, "Um, Nenhum e Cem Mil", "Esta noite improvisa-se". Recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1934.

Em "Esta Noite Improvisa-se" Pirandello conta duas histórias paralelas. A da peça em si, que é a história de Mommina, Dorina , Totina e Néné, e a história dos actores a representar uma peça. É o teatro dentro do teatro, em que, máxima ilusão, na boca de uma personagem, Pirandello faz referência a si mesmo como o autor do texto.


(lbc)